22 junho 2007

Apocalipse: capítulo quatorze, versículo três

Estamos estudando o livro de Apocalipse nos cultos de doutrina... Há aproximadamente cinco meses que a igreja escuta toda quarta-feira sobre o fim dos tempos. Nesses cinco meses, fui no máximo duas vezes ao estudo sobre Apocalipse. Não por não gostar do livro, não por temer ouvir as histórias ali contidas e perder o sono ao lembrar da batalha do Armagedom, não pela complicação das simbologias ali descritas (até pelo fato de meu pastor facilitar por demais o entendimento), mas simplesmente por que toda quarta-feira eu tenho aula na Universidade – Prática de Ensino – “como dar aula” – “como preparar aulas” – “como fazer os alunos de Ensino Fundamental, Médio e afins gostarem de História”... Pois é, devido à Prática de Ensino, fui apenas duas vezes ao culto de doutrina das quartas-feiras na minha igreja Batista.
Férias – Prática de Ensino concluída (depois de muito choro e ranger de dentes) e finalmente... Culto de doutrina! Agora sim, poderia participar de um estudo onde o Livro de Apocalipse seria desvendado capítulo por capítulo, a partir do décimo quarto, eu passaria a entender melhor o Livro. Hum... Mas... Décimo quarto capítulo?!? Ora... Já??? Apesar da desmotivação, decidi (puxado pela namorada) assistir ao estudo. A desmotivação viria pelo fato de que eu cria que, como já perdera treze capítulos, o assunto ficaria “meio pela metade”, tendo em vista que Apocalipse já não é lá essa coisa tão simples de compreender, ainda mais perdendo o começo da história.
Pra ser sincero (parece início de música), a maior desmotivação veio do momento que estou vivendo, que é o que liga o título do texto à minha narrativa sem graça (vai dizer que você leu até aqui e não pensou: “o que tem a ver esse título com a história dele?”). O momento que estou vivendo é especial e há uma palavra que o resume: tribulação!
É, estou passando de novo por ela, a mal recebida, a odiada, mas sempre lembrada como parceira de crescimento: a tribulação nossa de cada dia. Louvo ao Pai pelo fato de minhas tribulações geralmente serem ligadas à área financeira (ainda bem que não se tratam de doenças, morte, seqüestros, etc) e ainda bem que novamente é esse o motivo da minha luta.
O fato é que essa danada me deixou por demais cabisbaixo, com o coração triste e desmotivado; faltou o “quê” de alegria que quem me conhece sabe que é a marca registrada. Fui ao culto acompanhado por minha namorada, companheira fiel em momentos bons e momentos como este, não só para me animar, mas também pelo desejo de aprender mais acerca do Livro.
Todo culto tem louvor antes do estudo, e o chato pra quem está desmotivado e atribulado é o ministro fazer aquilo que quem está animado gosta e quem está desanimado foge: “vamos todos ficar de pé, louvemos ao Senhor pelas bênçãos dele em nossas vidas, pois sua alegria nos fortalece!”. Se já é chato passar por tribulação, imagina agradecer a Deus por Ele permitir essas tribulações... Eu, heim... Bem que muita gente fala que crente é bicho meio sem noção das coisas.
Após alguns minutos agradecendo a Deus pelo que Ele havia feito em minha vida (se bem que lá no fundo eu preferia dizer “não quero isso não, muito obrigado”), chega a bendita hora do estudo de Apocalipse, e minha mente já dizia: “vou pegar um estudo pela metade de um assunto que no momento não me interessa...” – E lá vamos nós para o capítulo quatorze de Apocalipse.
Depois da leitura e das explicações iniciais, chegamos ao versículo que me “reboliçou” (pronto, taí uma nova palavra): v.03: “E cantavam um como cântico novo diante do trono e diante dos quatro animais e dos anciãos; e ninguém poderia aprender aquele cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados da terra”. Após algumas explicações escatológicas que não cabem aqui, veio o que de fato me interessou, quando o pastor falou que somente os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados entendiam a música que cantavam... Eles vinham da tribulação... Só eles entendiam... Hã? O pastor pergunta: “sabe aquela música que para os outros é indiferente, mas para você fala muito? Ora, somente os cento e quarenta e quatro mil entendiam por que só eles haviam passado por aquilo, só fazia sentido para eles!” continua: “existem momentos que passamos por situações que pregações, louvores, imagens só fazem sentido para nós, pois somente nós sabemos o que foi passar por aquilo, e parece que Deus vem diretamente a nós e fala conosco, então dizemos: ‘é, isso é pra mim’”. Bom, depois dali Apocalipse capítulo quatorze começava a fazer mais sentido para mim... A pregação foi direcionada a outro tema: tribulações!
Qual o real sentido das tribulações? Por que nosso Pai permite que seus filhos passem por momentos em que muitas vezes olha-se para o lado e não há perspectiva de mudança? Exatamente por isso! Muitas vezes nós precisamos ter a certeza que não há mais saída para então colocarmos toda nossa confiança no autor e consumador da nossa fé. Quando estamos passando por tribulações e vemos inúmeras portas diante de nós, o natural é irmos rapidamente (para que saiamos logo da situação) em direção a uma destas e abrirmos a porta, afinal, somos brasileiros, não desistimos nunca e há muitas opções de saída.
A questão está aqui... Quando há portas diante de nós, não necessitamos de ajuda extra, basta que nós mesmos estendamos a mão à maçaneta e a movimentemos de maneira que a porta se abra. Por outro lado, quando não temos a porta, a situação muda, e é exatamente aqui que Deus entra na história. Tribulação serve a isto: termos a certeza que dependemos de Deus, tão somente dele, fazendo cair por terra a auto-suficiência, a crença na própria força para sair de determinado lugar.
Certo irmão a quem amo muito, diácono da minha antiga igreja (Hilário... Homem santo que não deixa de ser fiel ao nome: hilariante!) costumava dizer: “Saulo, quando sua vida estiver numa reta constante, sem lutas... cuidado, pois vida de crente é pra ter lutas, pois o lombo dói, mas o “nego” cresce em intimidade com Papai do céu”. É, Hilário não falava de algo novo, sempre que lembrava as suas palavras, me reportava a Pedro, que inspirado pelo Santo Espírito escrevia em sua primeira epístola: “...em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco tempo contristados com várias provações, para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória na revelação de Cristo Jesus.” (1:6-7).
Não há nada que faça um servo crescer mais que a tal da tribulação, é sem dúvida um meio que nosso Pai usa a fim de nos transferir muitas vezes do leite ao alimento sólido, do “engatinhar” ao “andar sem o auxílio de outrem”. Porém, muitas vezes nosso Pai, que, sendo santo, é também justo, age de forma a nos deixar em situações que nada mais são que reflexos das nossas atitudes, conseqüências de erros cometidos. Para todo pecado há uma conseqüência, muitas vezes revelada na tribulação; ou vai agora um indivíduo fazer comprar que não pode pagar e, com cobradores à porta, dizer “minha fé está sendo provada, o servo tem que ser perseguido, pois o mundo em trevas não suporta a luz que irradia dos que servem ao deus todo-poderoso!” o mesmo Pedro no capítulo quatro adverte aos que não sabem administrar as finanças ou mesmo aos “sabichões” de plantão: “ninguém sofra como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como o que se entremete em negócios alheios; mas se padece como cristão, não se envergonhe...” (v.15-16a).
Sendo assim, se algum irmão apressado engravidar a namorada, não venha dizer: “isso é perseguição do inimigo para que nós enfraqueçamos na fé, pois quem é servo é perseguido pelo diabo”. Não, colega, isso é conseqüência de pecado mesmo, tem muito mais a ver com você do que com o diabo... Nós e nossa mania de jogarmos tudo nas costas do adversário, enquanto os “pobres atacados” se banham no lamaçal do pecado usando a perseguição à igreja como escudo. Como o mesmo texto acima frisa, tribulação não deve ser ocasionada por pecado, tampouco motivo para vergonha; oremos a fim de que tenhamos sabedoria para sabermos como caminhar por ela absorvendo o crescimento que esta traz à nossa vida – crescimento lançado a nós por meio das tribulações, pois “pra mim tenho por certo que as tribulações deste tempo presente não podem se comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Rm. 8:18).

2 comentários:

Leylane disse...

Que bênção!!
É meio complicado mesmo para nós, pobres, cegos e nus, agradecermos a Deus pelas tribulações, quando estamos vivenciando situações difíceis...mas hoje louvo a Deus pelas tribulações que passei, me fizeram crescer e aumentaram minha intimidade com ele.
Pena que não posso ir para os cultos na quarta, ainda bem que tem tu pra resumir e escrever esse texto edificante.
xeroo meu pai que Deus me deu de presente!!

Jamile Campos disse...

Eh a pura verdade mesmo!
Sao nesses momentos que nos sentimos tao pequenos... e Deus nos mostra ser tao grande!
Passada a tribulaçao vc tem a certeza que tinha que passar por aquilo, que era necessário!
Dificil eh o momento mesmo.. mas temos nosso PAI, ELE eh nosso guia e podemos enfrentar qualquer coisa!
Texto massa Saulo!
Deus te abençoe!