26 novembro 2007

Deificação de pessoas

Um dos versículos mais famosos dentre os sermões que Jesus pregou talvez seja “Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mateus 7:1). E a aplicação mais usada no meio evangélico para esse versículo é uma certa imunidade em relação às atitudes. Por exemplo, há anos o meio evangélico brasileiro tem usado rosas, lenços, punhados de sal, óleos “ungidos”, sabonetes e toda espécie de bugiganga “espiritual” para atrair as bênçãos de Deus.

Só para vermos a bobagem que é isso, a palavra rosa aparece apenas duas vezes em toda a Bíblia. A primeira citação é em Cantares 2:1, onde a esposa diz ser a rosa de Sarom para seu esposo. Essa é uma clara comparação da Igreja, que deve ser linda e perfumada para Jesus, seu noivo.

A segunda citação é em Isaías 35:1 e mostra que a ação do Espírito de Deus vai restaurar as forças dos que confiam em Deus. Ora, nesse sentido a boa interpretação dos textos mostra que a ação de Deus é para preparar a Sua noiva para o grande encontro das bodas do Cordeiro. Nada a ver com mandingas para atrair bênçãos temporais de Deus de cura, de libertação e de prosperidade.

Quando os praticantes dessas atitudes são confrontados, utilizam o texto de Mateus contra o julgamento entre as pessoas e associam, a este versículo, outro ainda mais enfático: “...Não toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas.” (Salmo 105:15).

Diante dessa afirmação (e fora de contexto), quando o pastor fala em voz mais alta, com a testa franzida, gesticulando com os braços e gritando glória a Deus, é natural que as pessoas tenham medo do dito cujo, ou pelos, receio de questionar se o tal pastor está realmente certo. Ainda mais se esse pregador tiver um canal de televisão, ou vários programas televisivos, escreve livros, grava CDs, participa de inúmeros congressos e tem milhares de seguidores, ele só pode estar certo!

Hoje enfrentamos uma deificação dos líderes evangélicos no Brasil. Os pastores e os ministros de louvor são entronizados cegamente pelas pessoas sem que haja nenhum tipo de avaliação do que é pregado e do que é feito. A prática, diga-se, salutar e bíblica, de avaliar o conteúdo não é mais ensinada nas igrejas e, pelo que percebo, tem sido negada.

Pastores internacionais (e os tupiniquins também!) quando profetizam suas curas e milagres jamais podem ser questionados em suas atitudes. Quando os milagres por eles reivindicados não acontecem, refletem a falta de fé da pessoa. Como um homem desses vai se explicar para uma mãe que não teve o milagre da cura de seu filho e ele acabou morrendo? Como um homem desses, que mandou essa mãe para de dar os remédios, vai se explicar diante das autoridades?

Infelizmente os grandes líderes evangélicos brasileiros estão envoltos por uma aura de santidade e de correção que, se alguém ousa questioná-los, logo vai ser acusado de rebelde, de atacar um ungido de Deus e de estar fazendo um julgamento. Tente pedir uma explicação para uma pessoa que segue esses líderes da razão de se usar uma “rosa consagrada” para alcançar a bênção de Deus. Eu já fiz. E a resposta que eu recebi foi “mas foi o fulano de tal que mandou e ele é de Deus”.

Ouse questionar os reais motivos de um líder evangélico estar preso e até sua conversão vai ser posta em xeque. Ouse questionar por que uma pessoa engatinha diante de Deus numa apresentação e você terá questionado os seus sentimentos em louvar a Deus. Ouse questionar se algum ensinamento é realmente bíblico. Verifique se a doutrina ensinada nos diversos programas de televisão é realmente bíblica.

No primeiro versículo de Mateus 7, Jesus nos proíbe de fazermos julgamentos e sentenciarmos as pessoas. Mas no final desse capítulo Ele nos adverte para avaliarmos onde estamos construindo nossa casa, ou na rocha ou na areia. Em 1 João 4:1 somos advertidos que nem todos os espíritos procedem de Deus. Em 1 Tessalonicenses 5:21 somos instados a verificar tudo e reter apenas o que é bom. Em Efésios 4:14 somos advertidos a não sermos conduzidos pelas astúcias dos homens.

Quem foi que disse que os pastores não erram? Quem foi que disse que tudo que o líder de louvor faz é correto? Quem foi que disse que toda revelação vem da parte de Deus? Quem foi que disse que a esposa do pastor deve ser a pastora da igreja local? Quem foi que disse que as músicas que louvam a Deus são todas parecidas, na métrica e nas letras? Quem foi que disse que estamos em avivamento no Brasil? Quem foi que disse que o louvor das igrejas deve ser igual aos grupos que mais vendem no Brasil? Ou na Austrália? Quem foi que disse que as pregações devem ser parecidas com a dos pastores da televisão? Quem foi que disse que eu devo contribuir para os programas de rádio e de televisão não acabarem? Quem foi que disse que Deus está interessado na minha prosperidade financeira? Quem foi que disse que o Brasil é do Senhor Jesus? Quem foi que disse que o Paquistão não é do Senhor Jesus?

Será mesmo que foi Deus quem revelou tudo isso?

Marcos David Muhlpointner

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