25 junho 2013

Feliciano, Malafaia, "cura gay", ditadura de uma minoria e a intolerância com os intolerantes

    De algum tempo para cá, o Brasil vem sendo palco de uma série de debates acerca da união homoafetiva – após uma entrevista do Pr. Silas Malafaia no “De Frente com Gabi”, a discussão se tornou ainda mais acirrada e agora, para piorar, vem a discutida e mal informada “Lei da Cura gay” (coloquei entre aspas porque de fato o sentido é errôneo).
    Em conversa com uma amiga pelo Facebook, a mesma me perguntou o que eu achava dessa discussão toda. Resolvi colocar abaixo o pequeno texto que a enviei. Espero que seja uma leitura interessante:

    Acho que neste atual momento, temos uma série de problemas que merecem reflexão: um deles é o desejo de uma minoria em querer que os seus direitos sejam colocados acima dos outros, um outro problema é a diferença de nossas atitudes quando contrastadas com a de Cristo. Vou dar um exemplo: tenho um amigo que é homossexual e com quem tenho amizade há anos. Esse cara me conheceu na época em que eu discutia com minhas professoras na escola administrada por freiras com perguntas céticas de um adolescente revoltado com um Deus cristão. O cara morou na mesma cidade que eu – e me conhecia porque sempre me via debatendo e fazendo perguntas capciosas para alguns colegas cristãos.
    Quando cheguei a João Pessoa o reencontrei na cidade, e ele me lembrou dos meus debates, então perguntou se eu ainda fazia aquilo. Quando disse a ele que era cristão, ele se surpreendeu, isso deu uma abertura para sermos amigos, já que ele era meio revoltado com o Cristianismo e os meus pensamentos eram diferentes dos que ele tinha estereotipado em relação à minha religião. Na época ele não era um homossexual assumido, apesar de eu saber que ele era.
    Certa vez, quando eu falava do Evangelho para um colega universitário, ele disse que queria falar comigo, então depois saí e ele perguntou: “Saulo, você crê na cura gay”? E eu disse: “não, não creio”. Ele ficou surpreso. Eu disse: “Fulano, cura só recebe quem é doente - ser gay não é doença, é pecado, assim como várias outras práticas, muitas das quais eu tenho e procuro lutar contra”. Ele ficou calado, então continuei falando com muito amor, até pela amizade que tínhamos. Na minha fala fui explicando que eu acreditava que a homossexualidade era um pecado como outro qualquer – assim como a desobediência aos pais, à sexualidade fora do casamento, à traição no casamento, à pornografia, enfim... Apesar de muitas vezes ser tentado a pecar, eu posso preferir não fazê-lo – e que eu cria que alguém poderia deixar de cometer o pecado da homossexualidade, ainda que fosse algo que seria uma grande luta, pois seria abrir mão de seus desejos sexuais, o que é uma luta!
    Meu amigo continuou calado e depois de um tempo ele perguntou: “Você crê que alguém vai pra o inferno por ser homossexual?” e eu respondi que não. Ele ficou meio sem entender e disse: “como assim?” e eu disse: “eu creio que as pessoas vão para o inferno por causa do pecado, independente de qual seja. Eu não suportava a ideia de um Deus e iria para o inferno; eu poderia ser mentiroso e eu iria para o inferno; eu poderia ser extremamente religioso e se não mudasse minha vida eu iria para o inferno. O que muda essa questão é o fato de eu reconhecer quem sou, reconhecer que sou pecador, que só busco o pecado e que sozinho eu não consigo a salvação. O que aconteceu comigo foi que eu reconheci a porcaria que eu era – eu reconheci a porcaria que eu sou e entendi que se dependesse só de mim eu nunca alegraria o coração de Deus – eu entendi que isso só aconteceria com Jesus, então eu entendi que precisava me jogar nos braços dele.”
    Eu falei isso e outras coisas que no fim levaram ele a dizer que ele que até então tinha outra visão sobre o Cristianismo, uma bem mais negativa. Então um irmão evangélico me pergunta: "Aquele cara se converteu?" Não – aquele cara até concluir o seu curso ainda andou comigo inúmeras vezes, devido à nossa profunda amizade construída aqui, antes dele voltar para sua cidade natal. Ele hoje é assumido, mora com outro cara e trabalha em outro Estado. Quando nos falamos digo para ele sobre a saudade de nossa conversas e do quanto o amo e de que mais que eu, Cristo o ama. Nessa semana ele me pediu oração devido a alguns problemas com sua família – finalizou dizendo que me amava muito e que orasse por ele. 
    Bom... Sabe porque contei essa história toda? Porque, independente da conversão desse cara (o que, como disse, não ocorreu), eu utilizei algo que não utilizamos muito nessas abordagens atuais de confrontação ao pecado: amor!
    Muitos amigos da minha época de Mestrado odiavam evangélicos até me conhecerem – porque, porque eu sou melhor? Não, porque eu amei o meu colega ateu, amei o meu colega hindu, amei meus colegas de diversas religiões e ATÉ o meu colega evangélico – e tive muito mais oportunidade para falar do amor de Cristo quando eles viram o amor deste Cristo em mim - e entenderam o que de fato é esse amor. Ora, isso não pode acontecer também com você? Claro – é só estar disposto a, mesmo sendo pecador, buscar fazer como Cristo e amar – afinal, amar é uma decisão! 
    Agora eu pergunto o seguinte: Será que Silas Malafaia com sua retórica é muito usado para atingir o coração de um homossexual? Não estou julgando, mas creio que dificilmente, pois o seu discurso tem uma série de argumentos teológicos, mas falta aquele ingrediente chamado amor... Ou seja: ele convence todos os evangélicos que o escutam, MENOS quem mais deveria lhe escutar: os homossexuais!
    Há algumas semanas eu entrei em um fórum na internet sobre sexualidade e inúmeras pessoas “crentes” estavam detonando os homossexuais, então muitos homossexuais detonaram os crentes e estava aqueeeela guerra “santa”, então eu escrevi duas linhas sobre o amor de Cristo e no fim disse que se alguém precisasse ser ouvido, “lido”, alguém estivesse precisando de ajuda por algum problema emocional, me enviasse um e-mail, nem precisava ser com o nome verdadeiro. Dois dias depois um cara de outro Estado me enviou um e-mail, dizendo que lutava contra a homossexualidade e perguntando o que eu achava disso.
    Escrevi um longo e-mail para ele e ele respondeu – depois de outros dois e-mails ele me enviou seu nome e e-mails verdadeiros – na mesma semana conversamos “olho no olho” via Skype. Há aproximadamente 08 meses eu acompanho esse cara pela internet, ele tem compartilhado comigo suas lutas e como ele tem medo de que sua igreja descubra seu pecado, pois há algumas semanas um foi expulso por confessar ser homossexual em um grupo pequeno e pedir ajuda.


    Sabe, na verdade acho que chegamos onde chegamos mais por culpa do Cristianismo institucionalizado do que pelo próprio liberalismo hedonista dessa galera, explico: Os “cristãos religiosos” (para fazer a diferença dos “cristãos discípulos”) esqueceram que são pecadores que também lutam contra o pecado, então se colocaram como superiores – e não fizeram como Cristo que amou a mulher diante do poço, deixou de lado o fato de ser judeu e falou com a samaritana, deixou de lado o fato de ser homem e falou com a mulher (na época isso contava muito), deixou de lado o fato de ser o Cristo e falou com uma pecadora adúltera – a amou – seu amor a contagiou – e ela deixou de lado o cântaro e foi anunciar quem Ele era. Essa falta de amor do Cristianismo provocou ódio e uma necessidade de calar sua voz – então hoje os cristãos gritam contra eles de forma errada e como resposta eles querem impor uma ditadura.
    Muitos cristãos que conheço são discípulos de Cristo e não meros religiosos – e muitas vezes, devido à postura de muitos líderes, desviam o foco do mandado de Cristo. Você é reflexo do amor deste Senhor amoroso e, independente das posturas dos que estão próximos de você, você foi chamado para fazer a diferença, amando o pecador, não obstante o seu pecado – eu amo os meus amigos pecadores pelo fato de, ao olhar para mim mesmo, me ver coberto de pecados e necessitado da misericórdia de Deus. Nós devemos amar assim como Cristo nos ama, não obstante a nossa luta contínua contra os nossos pecados.
    No fim das contas, eu digo que a culpa maior está em nós pelo fato de dizermos que conhecemos a Cristo. Nós é quem somos cobrados, nós é quem anunciamos a Redenção e o amor de Cristo. Não concordo com as posturas de boa parte dos homossexuais – sou totalmente contra a forma como eles querem exigir seus direitos (entrar em uma igreja e se beijar porque o pregador da noite é Marcos Feliciano não é uma boa alternativa quando se fala de respeito) – tampouco concordo com as posturas de Marcos Feliciano, Silas Malafaia e outros (muitos dos quais discordo radicalmente do que pregam) – amo o Evangelho que abomina a homossexualidade, mas que abraça o homossexual e o ama – que é o mesmo que abomina o adultério, mas ama o adúltero, abomina a pornografia e abraça quem a consome e o ama – foi o mesmo que abominava meus complexos de inferioridade, minha depressão, minha descrença, minha arrogância, mas que me amou com todas as mazelas que eu tinha e me fez entender que Ele me quer da forma como estou, mas me quer lutando para mudar, ainda que essa seja a maior luta de minha vida.
    Deus nos abençoe! 

4 comentários:

Anônimo disse...

Concordo com você! Devemos ser a expressão do Amor de Cristo. O mundo precisa ser atraído por esse Amor. Se conseguirmos fazer os cristãos perceberem e entenderem isso, talvez só o nosso viver seja suficiente para anunciar Cristo. Já ouvi algumas pessoas comentarem que, muitas vezes, somos a única" bíblia" que alguém tem a oportunidade de conhecer.
Parabéns pelo texto. Que a graça de Deus superabunde na sua vida!

gabrius disse...

Muito lindo o que você disse! Às vezes, certos cristãos querem convencer a mente, mas esquecem do coração alheio! Parabéns!!

André Bronzeado disse...

Saulo, como sempre um texto muito lúcido. QUando puder visitar meu blog, dá uma lida no texto "Cristãos, homossexuais e seus extremos". Gostei muito do seu texto. Paz!

Drica Estudo disse...

Parabéns pela sensatez diante de um assunto tão polêmico!

#maisamorporfavor É isto que o mundo precisa com urgência!!!

É lamentável ver como o ser humano está cada vez mais intolerante com as diferenças. Lembremos que a intolerância apenas colabora com a violência e "desconstrói" qualquer indício de raciocínio! Me entristece ver tantos corações "cristãos" sem amor ao próximo :(

O fato de não concordar com algumas atitudes do meu irmão, não justifica "humilhá-lo" ou "forçá-lo" a agir diferente. Pelo contrário, precisarei amá-lo ainda mais para conduzir sabiamente as nossas diferenças. Buscar entendê-lo, com respeito, para assim também ser compreendida.

"...amar e ser amado...compreender e ser compreendido..."

Abraços e fiquem todos na Paz!
PS.: Continue escrevendo!!! Amei seu blog :)